Engels - A origem da Família, da propriedade e do Estado - Uma resenha
Friedrich Engels (1820-1895) foi um filósofo social e político alemão. Teve papel de destaque no desenvolvimento do marxismo. Colaborador e amigo de Karl Marx, publicou dentre diversos artigos e livros, os volumes II e III da obra "O Capital", após a morte do amigo.
Engels: o segundo violino. A obra de Engels, tanto literária quanto prática, constitui junto com a de Marx um todo orgânico inseparável, que deu sua formulação teórica mais profunda, assim como a sua estruturação política mais expressiva, ao desenvolvimento do proletariado moderno. Sem sua atuação ativa e suas contribuições, o marxismo, "não teria existido".
Existia entre os dois intelectuais uma afinidade de ideias tão grande que suas diferenças quase se anulavam. Para obter um conhecimento profundo sobre a obra marxiana, é fundamental, essencial e irredutível conhecer a obra de Engels, pois, sem isso, por mais que se conheça a obra completa de Marx, sempre será um conhecimento parcial. Pensar em Marx é, inexoravelmente, pensar em Engels e vice versa. A obra que os dois edificaram tornou-se uma obra em comum.
A origem da Família, da propriedade e do Estado
Engels escreve esta obra – A origem da Família, da propriedade e do estado - aconselhado por Lênin.
Baseia-se nas anotações que Marx fez ao ler a obra original de Lewis Morgan (que estudava vida tribal índios Iroqueses, na América do norte).
Nessa base (anotações Marx e texto Morgan) Engels vai além da questão do estado e mostra a conexão HISTÓRICA entre família, propriedade e Estado – identifica a ORIGEM do Estado.
Fenômenos da realidade podem ser compreendidos examinando-os a partir de suas origens. “ “a partir da anatomia do homem para chegar a anatomia do macaco” – prefácio de marx (contribuição para a crítica da economia política 1857) Engels parte do conhecimento do estado capitalista para buscar na história sua origem e sua gênese.
Sociedade não é SOMA das famílias. Formação da sociedade e das famílias andam JUNTAS – a relação entre os sexos, da vida e da sobrevivência visando suas necessidades econômicas materiais.
Engels generaliza a classificação de Morgan da forma seguinte:
Estado Selvagem. - Período em que predomina a apropriação de produtos da natureza, prontos para ser utilizados; as produções artificiais do homem são, sobretudo, destinadas a facilitar essa apropriação. Forma de família: Matrimônio por grupos.
Barbárie. - Período em que aparecem a criação de gado e a agricultura, e se aprende a incrementar a produção da natureza por meio do trabalho humano. Família Sindiásmática.
Civilização - Período em que o homem continua aprendendo a elaborar os produtos naturais, período da indústria propriamente dita e da arte. Forma de família: Monogâmica com seus complementos: o adultério e a prostituição.
Relações sexuais sem entraves? Não existia ideia de: Ciúme Incesto
O matrimônio por grupos x matrimônio por pares
Tribo – não conhece propriedade privada, subordinação da mulher. – matriarcado não no sentido de preponderância mulher versus homem, mas de linhagem materna, descendência.
Barbárie - A passagem do que ele chama de "heterismo" ou "Sumpfzeugung" à monogamia realizou-se essencialmente graças às mulheres. Densidade cada vez maior da população, tanto mais envilecedoras e opressivas devem ter parecido essas relações para as mulheres, que com maior força deviam ansiar pelo direito à castidade, como libertação, pelo direito ao matrimônio, temporário ou definitivo, com um só homem. Esse progresso não podia ser devido ao homem, pela simples razão, que dispensa outras, de que jamais, ainda em nossa época, lhe passou pela cabeça a idéia de renunciar aos prazeres de um verdadeiro matrimônio por grupos.
Só depois de efetuada pela mulher a passagem ao casamento sindiásmico, é que foi possível aos homens introduzirem a estrita monogamia - na verdade, somente para as mulheres. matrimônio sindiásmico e na gens baseada no matriarcado Família essa típica da barbárie. No entanto, novas forças econômicas surgem e dissolvem essa família.
Civilização - Surge propriedade – através da criação de gado – originária da caça, que na divisão de trabalho posta era exercida pelo homem - Agora, com suas manadas de cavalos, camelos, asnos, bois, carneiros, cabras e porcos, os povos pastores, que iam ganhando terreno – precisando mínima vigilância para garantir abundante carne e leite. Como a propriedade fica em poder desse homem, a quem, no entanto, pertenceria essa riqueza nova ? Não há dúvida de que, na sua origem, pertenceu à gens. Mas logo surge a necessidade de garantir a descendência por linha paterna, ou patriarcado: sucessão da herança de pai para filho. Para assegurar a fidelidade da mulher e, por conseguinte, a paternidade dos filhos, aquela é entregue, sem reservas, ao poder do homem: quando este a mata, não faz mais do que exercer o seu direito. A família monogâmica diferencia-se do matrimônio sindiásmico por uma solidez muito maior dos laços conjugais, que já não podem ser rompidos por vontade de qualquer das partes.
A monogamia não aparece na história, portanto, absolutamente, como uma reconciliação entre o homem e a mulher e, menos ainda, como a forma mais elevada de matrimônio: Surge aqui a subordinação da mulher. O desmoronamento do direito materno, a grande derrota histórica do sexo feminino em todo o mundo. O homem apoderou-se também da direção da casa; a mulher viu-se degradada, convertida em servidora, em escrava da luxúria do homem, em simples instrumento de reprodução. "A primeira divisão do trabalho é a que se fez entre o homem e a mulher para a procriação dos filhos” (Marx)
A monogamia foi um grande progresso histórico, mas, ao mesmo tempo, iniciou, juntamente com a escravidão e as riquezas privadas, aquele período, que dura até nossos dias, no qual cada progresso é simultaneamente um retrocesso relativo, e o bem-estar e o desenvolvimento de uns se verificam às custas da dor e da repressão de outros.
Aqui surge a escravidão na sua pior face. Já existia escravidão, claro, mas nas fases selvagem e a bárbara – a tribo vencedora matava ou adotava os derrotados, já que nessa época, a força de trabalho do homem ainda não produz excedente apreciável sobre os gastos de sua manutenção. Ao introduzirem-se, porém, a criação do gado, a elaboração dos metais, a arte do tecido e, por fim, a agricultura, a coisa muda de figura.
Sociedade grega e romana – pater familias: entende-se a autoridade absoluta sobre a vida dos filhos e da mulher, além da dos escravos. Por Família entende-se por propriedade (os escravos, o gado, a propriedade em seu conjunto incluso ali, mulheres e filhos).
Crise das gens - a ironia da história do mundo é insondável - seria precisamente o capitalismo que abriria nesse modo de matrimônio a brecha decisiva. Ao transformar todas as coisas em mercadorias, a produção capitalista destruiu todas as antigas relações tradicionais e substituiu os costumes herdados e os direitos históricos pela compra e venda, pelo "livre" contrato. Com desenvolvimento da economia, surgem diferenciações econômicas, de classe no interior de toda a descendência familiar (de toda estirpe, pois família entende-se todos os parentes, não só pai e filho) a ordem gentílica, isto é, a descendência por “gens” dissolve-se e entra em crise, é justamente dessa crise que surge a organização do estado, o qual tende a dominar a sociedade.
Estado torna-se necessidade a partir de um grau de desenvolvimento econômico, ligado a uma sociedade dividida em classes.
Estamos caminhando presentemente para uma revolução social, em que as atuais bases econômicas da monogamia vão desaparecer, tão seguramente como vão desaparecer as da prostituição, complemento daquela. A monogamia nasceu da concentração de grandes riquezas nas mesmas mãos - as de um homem – e do desejo de transmitir essas riquezas, por herança, aos filhos deste homem, excluídos os filhos de qualquer outro. Para isso era necessária a monogamia da mulher, mas não a do homem; tanto assim que a monogamia daquela não constituiu o menor empecilho á poligamia, oculta ou descarada, deste. Mas a revolução social iminente, transformando pelo menos a imensa maioria das riquezas duradouras hereditárias - os meios de produção - em propriedade social, reduzirá ao mínimo todas essas preocupações de transmissão por herança. E agora cabe a pergunta: tendo surgido de causas econômicas, a monogamia desaparecerá quando desaparecerem essas causas ?

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