O Olhar Indignado de Jane Elliot

O documentário Blue Eyed dirigido por Bertram Verhaag teve estréia no ano de 1996 e apresenta o trabalho de uma professora e socióloga estadunidense chamada Jane Elliott que faz a seguinte experiência empática: E se os brancos enfrentassem situações vividas pelos negros no dia-a-dia. Eles aguentariam?
Mas o que é uma experiência empática? Mais precisamente, o que é empatia? Conseguimos realmente nos colocar no lugar de alguém? Empatia traz conexão, em certa medida é a habilidade de ter a perspectiva de outrem, ou pelo menos reconhecer a perspectiva deles como verdade. Jane Elliot, consegue. Em seus experimentos, ela consegue produzir em pessoas brancas de olhos azuis o sentimento de serem discriminados, provocando as mais diversas reações.
Mas porque olhos azuis? Já no começo do documentário ela explica que escolheu um traço qualquer biológico, cuja escolha não depende do indivíduo. Ele nasceu assim, não teve escolha. Ora, não torturaram, escravizaram, massacraram, diferenciaram os negros por sua cor da pele? Simplesmente uma quantidade a mais de melanina na loteria biológica, gera uma marca, um estigma que a pessoa tem que carregar perante a sociedade. Então o mesmo vale para os olhos azuis. E assim, ela o faz. Ela irá julgar as pessoas presentes em uma sala pela cor de seus olhos.
O experimento começa, separando na sala as pessoas com olhos castanhos das de olhos azuis, e propõe realizar um teste, onde as pessoas de olhos castanhos já recebem metade das respostas. E ela frisa, não é trapaça: é reenforço de poder. É o que a meritocracia dos brancos dita e faz todos os dias. E é o que as escolas fazem todos os dias, além de testes e provas, temos livros didáticos cultural e historicamente tendenciosos a favor dos brancos. O discurso predominante hoje é a de que um médico e um advogado ocupam estes lugares porque, por esforço próprio, adquiriram o grau de cultura necessário para o exercício dessas profissões. Mas só um cego para não ver o grau de cultura adquirido pelo indivíduo decorre do lugar social ocupado por sua família, ou seja, este lugar social da família, decorre de relações de poder e define o grau de cultura que seu membro poderá obter. E essa é uma relação de poder que dificilmente deixarão passar. Apesar de injusto e até naturalizado está claro que o garoto negro da favela dificilmente será médico ou advogado. Mesmo que este garoto se esforce para obter um maior grau de cultura, dificilmente alcançará seu objetivo, ele vai ter que aprender a ser o melhor e nunca será o suficiente, sempre acharão algum defeito. A vida para sobreviver nesta sociedade tratará de o atropelar antes.
Na dinâmica, Jane Elliot segue por propor com que todos na sala tratem as pessoas de olhos azuis com desconfiança e rispidez. Muitos deles se aborrecem, resmungam, chegam a chorar. Aqui ela nos dá um belíssimo tapa na cara ao enfatizar: “Espere aí, você suportou isso por 2 horas e meia, você não foi ameaçado, sua família não foi ameaçada, sua renda e seu futuro não foram ameaçados, você mal aguentou por duas horas, sabendo que era temporário. Porque você tem tanta raiva? Você consegue imaginar como é viver com essa raiva a vida inteira?”
Então porque as pessoas negras não protestam mais? Jane conta a história de uma participante de olhos azuis de um determinado experimento que não iria se conformar e aceitar as regras, e incentivou as pessoas da sala a se unir e derrotar o opressor, principalmente para as pessoas negras presentes. E Jane Elliot diz, o que acontece quando pessoas negras protestam neste país? Nós a matamos.
E foi a morte de uma pessoa negra, o estopim para Jane Elliot criar seu experimento. No documentário vemos que a primeira vez que Jane Elliot realizou seu experimento de educação para igualdade racial foi em uma sala de terceira série primária, já que ela era professora de educação infantil, tocada pelo sentimento da morte de Martin Luther King (conhecido pastor protestante e ativista político estadunidense, um dos mais importantes líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, e no mundo, sua campanha de não violência e de amor ao próximo, foi destroçada com seu assassinado em 04 de abril de 1968) ela então, queria explicar o sentimento da morte dele para os seus alunos, e ela não sabia como fazê-lo, exceto por tentar com que eles se sentissem na pele de uma pessoa negra por um dia. E seu experimento não passou batido, ela recebia telefonemas ameaçadores, ninguém mais da pequena branca comunidade cristã queria seus filhos na sala de aula de uma “amante dos negros”, seus filhos eram perseguidos e sofreram abusos pelos coleguinhas, seus pais perderam seu negócio.
É fácil colocar pessoas em caixas. Tem nós. E tem eles. Os brancos. E os negros. Os homens. E as mulheres. O alto escalão. E os menos favorecidos. Aqueles em quem confiamos. E aqueles que tentamos evitar. Tem os recém chegados. E os que sempre estiveram aqui. Em seu experimento, Jane Elliot prova que o ambiente vivido diariamente pelos negros estadunidenses é o mesmo que os judeus sofriam na alemanha nazista, mas as pessoas brancas parecem não ver isso. E por que? Não veem isso, porque elas não vivem isso, há um país, mas duas realidades distintas. Sente-se é claro, um certo desconforto, mas quando o problema não nos atinge, geralmente não se faz nada. E sentar e não fazer nada, é cooperar com o opressor.
Muitos dizem, “não fui eu” e não sendo enunciada por ninguém em particular, a frase pertence a qualquer um. A sensação de que “não fui eu” fala de nós é uma confirmação de que, dado o alheamento geral, o melhor é jogar a toalha e cuidar da própria vida para que o próximo atacado não seja eu.
Já dizia Darcy Ribeiro, aquilo de que mais necessitamos hoje, é de uma juventude iracunda, que se encha de indignação contra tanta dor e tanta miséria sofrida pelos “outros”, porque se não houver indignação, empatia, esclarecimento como a promovida pela fala de Jane Elliot, a sua ausência é imediatamente ocupada pela canalha que sempre esteve no poder e está livre para agir a seu bel-prazer: perpetuando o racismo, a pobreza e as relações de poder a favor dos que sempre lá no topo estiveram.
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