Eu sou Bicha, Tu é Bicha, Somos Bichas!



“Eu sou eu e a minha circunstância”
Ortega Y Gasset
Alteridade, substantivo feminino cujo significado é: natureza ou condição
do que é outro, do que é distinto. Neste texto vamos tentar entender porque o
outro, quando diferente de nós, incomoda tanto. Por que até mesmo a
orientação sexual ou de gênero, assuntos tão particulares de cada um de nós,
da nossa intimidade, e que não deveriam afetar ou incomodar o modo como
levamos nossa vida, simplesmente porque não nos diz respeito, incomoda
tanto a maioria das pessoas. Que sociedade intolerante é essa, que se atribui o
nome de civilização, mas não consegue respeitar minimamente as diferenças
dos seus sujeitos?
Vamos começar por entender as diferenças entre gênero e sexualidade.
Para Louro (1998) as identidades de gênero são construídas socialmente,
estão sempre referidas às representações que um dado grupo faz de feminino
ou de masculino. São as formas como homens e mulheres vivem sua
masculinidade ou feminilidade. Já as identidades sexuais: também construídas
socialmente, através das distintas formas de experimentar prazeres e desejos
corporais, de pôr em ação a sexualidade. Homens e mulheres podem exercer
sua sexualidade com parceiros do mesmo sexo, do sexo oposto, de ambos os
sexos ou sem parceiros: homossexualidade, heterossexualidade,
bissexualidade, assexualidade, pansexualidade, etc.
Então, como a gente se reconhece perante a sociedade? Vimos que
podemos nascer com dois sexos biológicos distintos: o masculino e o feminino.
Entretanto existem pessoas que não conseguem se aceitar ou se enxergar
nessa realidade - nesse caso o sexo biológico discorda do sexo psíquico-, que
é o caso dos travestis, transexuais ou transgêneros.
Veja, tanto nossa noção de gênero quanto a nossa orientação sexual
são socialmente construídas, e chamamos de orientação e não opção porque
não é uma escolha, não podemos mudar de uma hora pra outra. O Ser humano

é um ser sócio-histórico. Mas o que isso quer dizer? O que nos faz sermos nós,
nossa personalidade, a construção da nossa subjetividade, nossas aptidões,
nosso saber-fazer, não são transmitidos por hereditariedade biológica, mas
adquiridos no decorrer da vida, por um processo de apropriação da cultura
criado pelas gerações anteriores (BOCK, A. M. et al., 2011)
Existe uma tendência de somente se sentir confortável com o “normal”,
de valorizar determinados comportamentos e escolhas do modo de tocar a
vida, mas Louro (1997) nos diz que essa “naturalização” é construída ao longo
da história, quando as diferentes comunidades (e no interior delas, os
diferentes grupos sociais) construíram seus modos de conceber a vida coletiva.
“O modelo normal” é a família nuclear constituída por um casal heterossexual e
seus filhos. Esse é o arranjo vai sendo considerado “natural” e através de

muitas instituições e práticas vão sendo apreendidas e interiorizadas; tornam-
se quase "naturais" (ainda que sejam "fatos culturais").

O que significa, por sua vez, representar como “não natural”, como
anormal ou desviante, todos os outros arranjos familiares e todas as outras
formas de exercer a sexualidade, um longo aprendizado vai, afinal, "colocar
cada qual em seu lugar". E as “divisões de raça, classe, etnia, sexualidade e
gênero estão, sem dúvida, implicadas nessas construções e é somente na
história dessas divisões que podemos encontrar uma explicação para a lógica
que as rege”. Louro (1997 p.60)
No curta - Bichas, o documentário - entramos em contato com alguns
relatos de homens homossexuais e vamos entendemos porque a Bicha
constrange tanto nossa sociedade. A bicha causa ao personificar trejeitos
considerados femininos no corpo de um homem. E isso incomoda, já que no
ideário coletivo temos construída a definição que é própria do masculino, da
masculinidade, comportamentos ditos de homem.
A feminilidade é tão mal vista nessa sociedade, que esse é um dos
principais problemas enfrentados pelos homossexuais chamados de afetados,
já que os homossexuais discretos, que não se transvestem são visivelmente
mais tolerados pela sociedade. E isso vale para toda população que não se
encaixa no padrão, já discutimos em sala de aula sobre a invisibilidade do
negro em determinadas localidades, também da invisibilidade do índio. Nessa
sociedade o mote é: se esconda aí, que está tudo certo.
Penso que é por isso que a Bicha incomoda tanto, a Bicha não se
encaixa nessa lógica. A Bicha não se “coloca no seu lugar”. Bicha é resistência.
A Bicha é uma afronta a toda essa “naturalização” artificial da nossa sociedade
no que tange comportamentos, gênero e orientação sexual. A Bicha incomoda
quando criança, ela incomoda na escola, ela não é aceita nem por quem mais
lhe ama, as pessoas que lhe colocaram no mundo (a justificativa é sempre o
medo que o filho sofra por ser diferente). A Bicha incomoda quando adulta,
com seu visual, com sua “afetação”, por usar roupas extravagantes, por usar
“cropped”, por ser estilosa, ela incomoda somente por passear de mão dada
com seu parceiro em vias públicas, ela incomoda porque ela APARECE.

Empoderamento. A palavra BICHA é historicamente usada como
xingamento. Anulamos o poder dessa palavra, se a tornarmos um elogio,
empoderamos quem se reconhece e se afirma: Eu sou Bicha. Eu sou um
homossexual que resiste.
Mas a luta é longa. Percebemos no vídeo que essa é uma preocupação
que perpassa todo o documentário: a Bicha ela é maravilhosa e deve ser
respeitada e amada, como todos merecem. Ela deve não só resistir, mas ao
sofrer um ataque, constantemente se reinventar perante a sociedade. Ela deve
tomar cuidado sempre que sofrer uma agressão, um desacato, um assédio -
para não responder igual e também se tornar ela também um agressor - mas
revidar de um jeito inteligente e de uma forma coerente se impor.
No entanto, esse empoderamento não está acessível à todxs, existem
questões socioeconômicas a combater, recortes raciais e até religiosos. Tem
as “As gatas da igreja” como narra um participante do documentário, “as gatas
da favela”. É essencial termos consciência e ficar atentos ao fato de que a
Bicha pobre tem mais problemas a enfrentar do que a bicha com algum poder
aquisitivo. A Bicha preta ainda mais obstáculos e contratempos a enfrentar do
que todas acima, e às vezes é difícil se assumir e se impor o tempo todo,
quando até se manter viva e alimentada é um desafio. Aqui o buraco é ainda
mais embaixo.

Bibliografia.
BOCK, A. M. et al. Psicologias: uma introdução ao estudo da psicologia. São
Paulo: Saraiva, 2001
LOURO, Guacira L. A construção escolar das diferenças. In: Gênero,
sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis: Editora
Vozes, 1997.
LOURO, Guacira L. Sexualidade: lições da escola. In: Meyer, D. (org.) Saúde e
sexualidade na escola. Porto Alegre : Mediação, 1998. p. 85-96.
Vídeo - Não entendeu? A gente desenha! - Gênero, Identidade de Gênero e
Orientação Sexual - https://www.youtube.com/watch?v=wFazBWeFOhE

Vídeo - Bichas, o documentário - https://www.youtube.com/watch?v=0cik7j-
0cVU

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