Da Critica da Poesia e da tragédia - Platão - A republica



Tragédia é a representação de uma ação elevada,
de alguma extensão e completa,
em linguagem adornada,
distribuídos os adornos por todas as partes,
com atores atuando e não narrando;
e que, despertando piedade e temor,
tem por resultado a catarse dessas emoções.
(Aristóteles, Poética, VI – 26)



No século VI a.C, na Grécia antiga, surge a Filosofia. Filosofia, é um substantivo feminino que em sua etimologia significa “amor pela sabedoria”, sabedoria esta experimentada apenas pelo ser humano consciente de sua própria ignorância, esse sentido do termo é atribuído ao filósofo grego Pitágoras.

Quando olhamos para trás, sabemos o quanto a civilização grega foi importante, tão importante que receberá o título de berço da humanidade. Veja bem os termos: Humanidade, Civilização. Boa parte de nossa evolução enquanto homo sapiens foi tentar não passar fome, o primordial aqui era sobreviver, e nossas necessidades poderiam se resumir na busca de abrigo e comida. Quem tinha tempo para pensar? O que leva a pergunta muitas vezes levantada em sala, mesmo nos dias de hoje, temos tempo pra pensar? Não, Ninguém tem tempo pra isso.



Mas os gregos tinham.


Pelo menos alguns deles. Voltemos a origem da filosofia: quando alguns homens, pertencentes aos primórdios da civilização grega, naquele ponto da evolução de sua cultura e vida em sociedade, não precisavam mais se preocupar com a própria sobrevivência - já que tinham outros trabalhando por eles para garantir seu alimento - acredito que o ócio e tempo livre para pensar, fizeram surgir outras necessidades: explicar a origem das coisas, os fenômenos do seu entorno, da natureza e até mesmo dilemas da própria humanidade e da vida em coletivo. A busca por racionalizar e melhorar nossa existência começa aqui.




Por essa razão, penso que nesse primeiro estágio da busca pela “sabedoria”, é inevitável não vincular esse pensamento a religião, mitos e crenças existentes no imaginário coletivo daqueles tempos. Por isso a representação ter sido tão importante e até vista de forma positiva para os antigos, como a representação que vimos na tragédia Antígona, que pôde elencar temas espinhosos tais como sobreposição do poder do estado sobre o indivíduo, além de questões religiosas. 


“A tragédia nasce quando se começa a olhar o mito com os olhos de cidadão” (Rodrigues, 2004).


Problemas éticos como: O que vale mais? A lei dos homens ou a lei divina? Essas discussões, e muitos outros tabus, como incesto etc, não teriam sido bem recebidas pela comunidade se não “suavizadas” pela estética da arte daquela época. A tragédia para os gregos foi essencial para a assimilação da existência humana, inclusive no que tange à idéia do divino. Para Nietzsche (do livro O nascimento da tragédia: Ou Helenismo e Pessimismo) os gregos tinham uma quedinha especial para retratar “o duro, o horrendo, o mal, o problemático da existência”, e para dar conta disso, criaram uma das maiores manifestações artísticas humanas: o teatro trágico ou, simplesmente, a tragédia.






Então, afinal, qual era a treta do Platão com os poetas clássicos da Filosofia antiga? Platão tende a renunciar esses artifícios da representação para tratar dos principais problemas filosóficos, julgando-os como um obstáculo no caminho para se chegar a verdade. Não devemos fantasiar, mascarar a realidade. Doa o quanto doer.

Podemos considerar Platão como um cidadão que confronta o saber tradicional de sua época?



No livro III da República, em meio a uma discussão da melhor maneira para se educar os futuros guardiões da cidade temos que “precisamos estender nossa vigilância aos que se aventuram a falar de fábulas e insistir com eles para que não adulterem tão nesciamente as coisas do inferno; pelo contrário deverão elogiá-las, pois não apenas é falso tudo que contam, como de todo inútil para os futuros combatentes.” (p.135)

A arte, principalmente nas representações que os gregos chamavam de poesias, elas distorcem a essência da verdade, da realidade das coisas. Os homens se tornam mais fortes sem elas, já que “não podemos admitir que poeta algum nos apresente homens respeitáveis dominados pelo riso, e muito menos deuses” e a “verdade deve ser tomada em alta consideração. (...) a mentira é, realmente inútil para os deuses, porém de alguma utilidade aos homens, à guisa de medicamento.” (p.140) - o medicamento aqui pra Platão é explicado brevemente em uma passagem onde ele (ou Sócrates) afirma que os governantes teriam o "direito" de mentir, se fosse para proteger seus governados e a pólis.

A poesia tal com ela era ensinada aos jovens não pode ser a base educacional da cidade, outro tipo de abordagem é necessária. Os deuses que deveriam servir de modelo a esses jovens, são apresentados de maneira ambígua nesses poemas: ora verdadeiramente deuses, ora como reles humanos, agindo de maneira completamente passional, eles se vingam, eles traem, eles seduzem, eles se embebedam de vinho e assim por diante.





É necessário ou banir ou reformar a poesia, pelo menos nesse primeiro estágio da educação na cidade. Para Platão a fala dos poetas é inconsequente e deturpada, não devemos louvar suas expressões insolentes para com os superiores, sua predileção pelos prazeres da carne, da mesa e do vinho.

Assim como devemos incentivar para que “nossos homens não sejam subornáveis e ávidos por dinheiro.”





Esta não é a virtude dos moços temperantes (p.141).

Tal formação não levaria o homem ao seu pleno desenvolvimento intelectual, então “precisamos acabar com essas histórias que deixam nossos jovens levianos e maus”. (p.145)

Como acabaríamos com isso? Ora, o poeta quando compõe um discurso como se ele fosse outra pessoa,  ele imita a fala de alguém. Se esse poeta não se ocultasse da narrativa, dispensaria a imitação e teríamos então uma exposição simples.

Debates e conversações seriam o método para alcançar o conhecimento - a famosa dialética “mó quirido” - mas aqui no sentido de “ arte do diálogo”, cujo foco é a contraposição e contradição de ideias que levam a outras ideias e assim por diante.



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Platão não quer o que vê a sua volta, daí sua força para construir um ideal. Não à toa o termo platônico tem sentido de algo ideal ou casto, virtuoso, da busca pelo bem, não do ganho material. Mas voltemos a educação: para sair da caverna e vermos as coisas mais claramente, além das suas sombras, era essencial para platão que os filósofos vejam os objetos realmente como eles são, essa é a imagem do filósofo que contempla as coisas como tal, iluminadas pela luz do sol, assim se dá o conhecimento, quando conseguimos distinguir a imagem da realidade.


Voltar pra caverna, nunca é fácil.

No que tange a educação dos jovens é essencial armá-los de habilidades úteis à cidade assim como de certa educação moral, por isso a afirmação de que a poesia é uma “experiência estética” que corrompe a razão.

Apesar de que, o próprio Platão tem lá sua cota de imitação já que seu próprio texto é uma narrativa indireta, com seu pensamento se desenvolvendo na figura de sócrates, o interlocutor de glauco em seus diálogos. Grandes dilemas que permeiam a humanidade são discutidos na república de platão, a justiça, a virtude, a educação e elas são contadas em um espectro maior, mais amplo, no plano da cidade. Neste plano ele usa muito do recurso dos mitos, os seja as respostas seguem sendo dadas dentro de um discurso e contexto mítico - da caverna, do anel de giges, o mito de er, etc. Para Platão o primado da vida boa é a virtude, e atualmente mais do que nunca, encerro esse texto pensando sobre a virtude e o papel da filosofia neste mundo em que vivemos, regido pela lógica do capital, pela lógica do dinheiro. 

O que diria Platão nesses tempos tão sombrios?

“Quando a tecnologia e o dinheiro tiverem conquistado o mundo;
quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com rapidez;
quando se puder assistir em tempo real a um atentado no ocidente e a um concerto sinfônico no oriente;
quando tempo significar apenas rapidez online;
quando o tempo, como história, houver desaparecido da existência de todos os povos,
quando um esportista ou artista de mercado valer como grande homem
de um povo;
quando as cifras em milhões significarem triunfo, – então, justamente então — reviverão como fantasma as grandes perguntas filosóficas:
para quê? Para onde? E agora?
A decadência dos povos já terá ido tão longe, que quase não terão mais força de espírito para ver e avaliar a decadência simplesmente como…
Decadência.
~ Martin Heidegger (18
89-1976), em Introdução à Metafísica


Bibliografia:
Livro III - República Platão.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm.O nascimento da tragédia ou helenismo e pessimismo. Trad. de: J. Guinsburg. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

Rodrigues, Luzia Gontijo. Nietzsche e Platão: arte e orquestração das paixões
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-512X2004000100006
acesso em 13/05/2018.

Vídeo. A República de Platão - MAURÍCIO MARSOLA.

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