O que Nietzsche diria sobre o Projeto "Escola sem Partidos"?
Eu
vou lhes dizer aquilo tudo que eu lhe disse antes
Eu
prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do
que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
–
Raul Seixas, Metamorfose ambulante
Friedrich Nietzsche (1844-1900) pode ser considerado o pensador cuja crítica
à racionalidade filosófica e a moral cristã foi uma das mais marcantes de seu
tempo. Suas obras de caráter controverso e irreverente, escritas frequentemente
sob a forma de aforismos e fragmentos, são voltadas contra a tradição
filosófica de sua época, mas também em defesa do que considera uma filosofia
afirmativa da vida: “exorto-vos, meus irmãos a permanecer fiéis à terra e a não
acreditar naqueles que vos falam de esperanças supraterrestres” (ZA “Prólogo” §
3). Aqui aprendemos que o estado/meio que importa é aquele que se situa no
próprio plano ordinário da realidade, e não fora ou superior a ele; trata-se de
considerar um viver que comporta a alegria e a dor de nossa condição neste
mundo, na terra, no aqui e agora – Foucault denominou esse modo de filosofar de
ontologia do presente. (PAGNI, 2007).
Nietzsche manifesta uma profunda
rejeição aos saberes instituídos e
ao instinto gregário – que
trata dos animais que vivem em bandos ou em grupos, tendência que leva os
homens ou os animais a se juntarem, perdendo, momentaneamente, suas
características individuais. Há uma fraqueza e arbitrariedade na “moral de
rebanho”, nas discussões em sala e com a leitura de Zaratustra, observa-se que
esse profeta se coloca na posição de um “mestre”, mas que não quer dominar,
controlar rebanhos, destituir almas de seus “próprios seres” que anulam suas
vontades e reprimem seus desejos para seguirem a um guia espiritual.
Esse filósofo contesta a educação de seu tempo, justamente por acreditar
que tal educação visava inculcar nos alunos as virtudes de um rebanho, cujas
práticas pedagógicas têm por objetivo final todo um corpo educado, pouco
perceptivo e enrijecido pela moral. Uma educação controladora, que direciona e
conforma os jovens partir dos interesses do Estado, da ciência e do mercado
(PAGNI, 2007). Temos aqui, uma profunda crítica a educação “massificadora”, que
fomenta a uniformização e valoriza a formação elementos comuns (e medíocres)
dos indivíduos, igualando-os, educando-os para a conformidade ao invés de despertá-los
em suas singularidades como seres humanos – aqui compreendemos o caráter
antinatural dessa educação e uma das mais graves fraquezas da educação de seu
tempo (Nietzsche 2003).
A crítica nietzschiana segue muito viva na contemporaneidade, na
experimentação e possibilidades de um pensar livre, alegre e afirmativo. O ato
de educar não deve estar preso aos aspectos institucionais, educar está
inevitavelmente ligado às questões da
existência, deve ser mais amplo e conectado também às questões culturais. Não
há nada estável no mundo, então essa educação tradicional que hoje visa
“formar” o ser humano, está errada desde a seu ponto de partida, já essa seria
uma formação engessada e baseada em verdades estáticas. Veja, para Nietzsche
não existe verdade absoluta e universal, elas são relativas e mudam
constantemente de acordo com a ordem dominante. Transformação constante e desconstrução
de valores considerados eternos sejam eles educacionais ou morais – aqui
está sua contribuição para a educação já que “não existem fenômenos morais, mas
apenas uma interpretação moral dos fenômenos” e “é somente superando-se que se
atinge o que se é.” (Nietzsche, 2005)
Aqui me proponho a um pequeno desafio, ao tentar me apropriar dos
ensinamentos de Nietzsche, tentarei fazer uma pequena e modesta ontologia do
meu presente, e mostrar quão urgente precisamos resgatar o seu pensamento
crítico e contestador quando se trata do futuro de nossos estabelecimentos de
ensino no Brasil – aqui um adendo, Nietzsche odiava tratar do futuro, em seu
texto “sobre o futuro dos nossos estabelecimentos” ele afirma que querer sem um
profeta é sem dúvida a maior das presunções, mas por isso mesmo parece ridículo
declarar que não se quer sê-lo, e se ele tem alguma contribuição acerca de
projeções sobre o futuro dos meios e métodos educacionais, é somente porque
esse futuro já chegou.
E um futuro sombrio chegou às nossas escolas. Estamos em vias de uma
verdadeira guerra cultural travada contra as escolas, seus professores e seus
alunos, com o advento de um projeto chamado “escolas sem partidos”, cujo
objetivo é acabar com as “ideologias de esquerda”, aliado a um discurso tosco
que visa supostamente neutralizar essa instituição já tão pobre e combalida. É
um projeto que pretende transformar as escolas em literalmente “escolas de UM
só partido”, acabando com a já pouca pluralidade e diversidade, conformando
seus alunos a um só tipo de verdade, a um só tipo de visão de mundo e de
valores morais – chegamos em 2018 e penso que Nietzsche deve estar se revirando
no caixão, se um despercebido ler esse trecho do autor, não diria se tratar de
uma realidade educacional do século XVII:
Para ele é quase como se percebesse os sintomas de
uma total extirpação e erradicação da cultura, quando se pensa na pressa geral
e na velocidade da queda, na suspensão de toda contemplatividade e
simplicidade. (...) Nunca o mundo foi mais mundo, nunca foi mais pobre em amor
e bondade. (...) O homem culto degenerou no pior inimigo da cultura, pois quer
negar com mentiras a doença geral e é um empecilho para os médicos. (1987,
p.38)
É um momento difícil e de regressão de qualquer avanço civilizatório que
possamos ter alcançado nos últimos anos, esse projeto vil, que aliado com a
reforma do ensino médio, acaba por desvalorizar o pensamento filosófico e
extirpa da escola outras disciplinas que ajudam a ampliar e dar uma visão mais
crítica da realidade e de seus valores, como ética, história, sociologia, que
poderiam fornecer uma educação mais completa, transformando os jovens em
indivíduos mais autônomos, espíritos capazes de pensar por si mesmos, seres
emancipados e não presos “às velhas opiniões formadas sobre tudo”.
Todo esse movimento faz parte conjunto de iniciativas das forças
dominantes que intenciona sem escrúpulos reduzir e enfraquecer e até mesmo
dizimar a cultura de nossos estabelecimentos de ensino – estamos prestes a
vivenciar a máxima negação da soberania no pensamento – já que este deve
submeter-se como um servo aos pressupostos morais e a verdade afirmada pela
cultura dominante, cuja visão de mundo não aceita oposição e cujo mote liberal
projeta aspirações mais individuais do que coletivas. Com disciplina e esforço
você pode superar as desvantagens que por ventura recebe ao nascer, respeite a
propriedade privada, seja determinado que a ascensão social não será uma
miragem – conversa pra boi dormir? Ou para conformar o rebanho?
A pergunta que mais balizou o pensamento nietzschiano segue viva e arde
até hoje: “O que estamos fazendo de nós mesmos?”.
Referências Bibliográficas
NIETZSCHE
F. Das três transmutações. In:
______. Assim falou Zaratustra: Um
livro para todos e ninguém. Tradução Mário da Silva. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2010.
_________. Além do bem e do mal: prelúdio a
uma filosofia do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
_________. Obras incompletas. São Paulo: Abril
Cultural, 1987.
_________. Sobre o futuro de nossos
estabelecimentos de ensino. In:______. Escritos
sobre educação. Tradução, apresentação e notas de Noéli Correia de Melo
Sobrinho. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2003. p. 41-137.
PAGNI, Pedro. SILVA, D. (orgs.). Introdução
à Filosofia da Educação: Temas Contemporâneos e História. São Paulo:
Avercamp, 2007.
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